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O TRABALHO NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Por Fabio Gomes

 

1 - DO MALANDRO AO OPERÁRIO (1926 - 1958)

1.1 - Surge o Malandro

Uma letra de música falando em trabalho era algo raro até meados da década de 1920. Os meios de divulgação musical existentes na época eram o teatro musicado, partituras e discos. Todas estas opções eram dirigidas a um público de renda alta. Os compositores que eram admitidos nesse meio também estavam na mesma faixa econômica. O trabalho assalariado não fazia parte das preocupações cotidianas desses artistas. As músicas da época eram canções românticas, sátiras à política ou comentários sobre costumes.

O samba já era um gênero que conseguira entrar nesse círculo no final da década de 10, mas se ressentia de uma grande semelhança com o maxixe, além de suas letras serem, geralmente, uma colcha de retalhos, uma estrofe não tendo nada a ver com a outra ou mesmo com o título. Sem contar que o samba, ainda procurando seu caminho, foi atropelado pelo avassalador sucesso da música nordestina no Rio de Janeiro (que dali a difundia para o restante do país) durante a década de 20.

Um dos primeiros sambas falando em trabalho a fazer sucesso foi “Morro de Mangueira”, de Manuel Dias, gravado por Pedro Celestino para o carnaval de 1926:

“Eu fui a um samba lá no morro da Mangueira/ Uma cabrocha me falou de tal maneira/ Não vai fazer como fez o Claudionor/ Para sustentar família foi bancar o estivador.// Ó cabrocha faladeira,/ Que tens tu com a minha vida?/ Vai procurar um trabalho/ E corta esta língua comprida.”

No ano seguinte, foi introduzido no Brasil o sistema elétrico de gravação de discos, aumentando a qualidade do som e diminuindo o custo. Com o disco mais barato, a tendência do mercado era crescer, o que logo atraiu muitas gravadoras para se instalarem no país. Um novo mercado para a música popular foi criado em 1932, quando o governo autorizou as emissoras de rádio a veicularem anúncios. A programação, até aí voltada a palestras e música de concerto, passa a tocar cada vez mais música popular.

Gravadoras, rádios e editoras de música abriram espaço para os sambistas, que neste primeiro momento trouxeram suas produções como eram cantadas no morro, falando de malandragem, amor, jogo... e criticando o trabalho. Um dos sucessos de 1928 foi o samba “Eu Quero é Nota”, de Artur Faria (não confundir com o músico e jornalista porto-alegrense Arthur de Faria), lançado por Francisco Alves:

“Eu quero é nota, carinho e sossego/ Para viver descansado/ Cheio de alegria, meu bem/ Com uma cabrocha a meu lado.// Eu queria ter dinheiro/ Que fosse em grande porção/ Eu comprava um automóvel/ E ia morar no Leblon.// Eu, como sou operário/ E não posso ser barão,/ Vou morar lá em Mangueira/ Num modesto barracão.”

Quase sempre o trabalho era apresentado como algo ruim. Causou surpresa este samba do carnaval de 1929, que o exaltava, desprezando a malandragem: “Vadiagem”, composto por Francisco Alves e gravado por Mário Reis.

“ A vadiagem eu deixei/ Não quero mais saber/ Arranjei outra vida/ Porque desse modo não se pode viver.// Eu deixei a vadiagem/ Para ser trabalhador/ Os malandros de hoje em dia/ Não se pode dar valor.// Ora, meu bem,/ Diga tudo que quiser/ Eu deixei de ser vadio/ Por causa de uma mulher.// Quando eu saio do trabalho/ Pensativo no caminho/ Que saudade do meu tempo/ Que saudade do meu pinho.// Mas chego em casa/ É carinho sem ter fim/ Vale a pena ser honesto/ Pra poder viver assim.”

Francisco Alves, cantor de tantos sambas de malandragem, teria mudado de lado? Ele mesmo respondeu gravando, ainda em 1929, seu samba “Golpe Errado”:

“ Mas que golpe errado eu dei/ Dizendo que eu ia deixar a vadiagem!/ Com o tal de trabalho não me acostumei/ Nem mesmo por camaradagem.// Força eu não faço/ Faça quem quiser/ No tal de trabalho eu passo/ Pegar no pesado/ Meu santo não quer/ Pra não ficar mal-acostumado.// Doa a quem doer/ Só vivo folgado/ Pois eu sei me defender/ Trabalho, isso não!/ Meu corpo é fechado/ É contra a minha religião.”

Com o passar do tempo, os compositores vão aperfeiçoando a abordagem do assunto. Já não era mais suficiente dizer que o negócio era ser malandro e não trabalhar. Os autores começavam a apresentar justificativas. Às vezes fracas, como no samba “O Que Será de Mim?”, de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves, gravado por este em dupla com Mário Reis em 1931:

“Se eu precisar algum dia/ De ir pro batente,/ Não sei o que será,/ Pois vivo na malandragem/ E vida melhor não há.//(...) O trabalho não é bom,/ Ninguém pode duvidar/ Oi, trabalhar só obrigado/ Por gosto ninguém vai lá.”

Já no samba “Cadê Trabalho”, de Noel Rosa e Canuto, de 1932, que não chegou a ser gravado, o malandro até queria trabalhar, o trabalho é que não queria nada com ele.

“Você grita que eu não trabalho,/ Diz que eu sou um vagabundo./ Não faça assim, meu bem!/ Pois eu vivo ativo neste mundo/ À espera do trabalho/ E o trabalho não vem.// Quando eu me sinto bem forte/ Vou procurar um baralho,/ Mas fico fraco e sem sorte/ Se vejo ao longe o trabalho.// Acordei com pesadelo,/ Quase que o chão escangalho/ Com dores no cotovelo/ Por sonhar com o trabalho!/ Trabalho é meu inimigo, já quis me fazer de tolo:/ Marcando encontro comigo, / O trabalho deu o bolo.”

Como dissemos, este samba é inédito. Mas sua letra foi publicada em jornal e é muito possível que tenha sido cantado pelo autor em apresentações em teatro, rádio ou circo, ou mesmo nas rodas de boemia. Digo isto em função de outro samba, “O Trabalho me Deu o Bolo”, de Moreira da Silva e João Golô, que Moreira lançou em 1937, com uma estrofe quase igual a outra de “Cadê Trabalho”; além disso, “Cadê Trabalho”, cuja melodia está perdida, cabe direitinho - com exceção da primeira estrofe - na música de “O Trabalho me Deu o Bolo”, cuja letra é esta:

“Enquanto eu viver na orgia/ Não quero mais trabalhar/ Trabalho não é para mim/ Ora, deixa quem quiser falar.// Quando eu tenho pesadelo/ Vou sonhar com espantalho/ Foi quando eu ouvi ao longe/ Alguém falar em trabalho/ Eu agora resolvi/ Que não hei de ser mais tolo/ Marquei encontro com trabalho/ Trabalho me dá o bolo./ (É sempre assim)// Fui trabalhar, trabalho estava cruel/ Eu disse ao patrão: Senhor, me dá meu chapéu/ Eu não quero trabalhar, trabalho vá pro inferno/ Se não fosse meu amor, nunca que eu botava um terno.”

De qualquer forma, “O Trabalho me Deu o Bolo” foi lançado em janeiro de 1937, quando Noel Rosa estava vivo (faleceria em maio desse ano) e residindo no Rio de Janeiro, podendo reclamar caso se julgasse plagiado, portanto. Mas a semelhança é gritante.

Nássara e Orestes Barbosa compuseram em 1933 o samba “Caixa Econômica”, em que o malandro critica a mulher que quer explorá-lo e explica que não trabalha por fatores hereditários. Gravação de Luís Barbosa e João Petra de Barros:

“ Você quer comprar o seu sossego/ Me vendo morrer num emprego/ Pra depois então gozar/ Esta vida é muito cômica/ Eu não sou Caixa Econômica/ Que tem juros a ganhar.// Você diz que eu sou moleque/ Porque não vou trabalhar/ Eu não sou livro de cheque/ Pra você descontar/ E você vive tranqüila/ Rindo e fazendo chiquê/ Sempre na primeira fila/ Me fazendo de guichê/ (E você quer comprar o quê, hein?)// Meu avô morreu na luta/ E meu pai, pobre coitado,/ Fatigou-se na labuta/ Por isso eu nasci cansado/ E pra falar com justiça,/ Eu declaro aos empregados/ Ter em mim essa preguiça, herança/ De antepassados.”

Se o trabalho não resolve os problemas do homem, então o melhor que o malandro tem a fazer é seguir sua vocação. Esta é a filosofia do samba “Lenço no Pescoço”, de Wilson Batista, gravado por Sílvio Caldas em 1933. É considerado o hino da malandragem:

“Meu chapéu do lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso/ Eu passo gingando/ Provoco e desafio/ Eu tenho orgulho/ Em ser tão vadio.// Sei que eles falam/ Deste meu proceder/ Eu vejo quem trabalha/ Andar no miserê/ Eu sou vadio/ Porque tive inclinação/ Eu me lembro, era criança/ Tirava samba-canção/ (Comigo não/ Eu quero ver quem tem razão)// E ele toca/ E você canta/ E eu não tô// (Pori boré, pori boré).”

O trabalho da mulher já era comentado. Às vezes o malandro exigia que sua companheira o sustentasse, como em “Vai Cavar a Nota (Nega por Favor)”, de Gadé e Walfrido Silva, lançado por Francisco Alves em 1933:

“Nega, por favor/ Vai pro batedor/ Vai cavar a nota que eu preciso/ Tu não tens juízo/ E às vezes esquece/ Que no meu amor há interesse/ (Esquece).// Pobre eu não banco/ Gosto de luxar/ Tenho sido sempre homem franco/ Tu bem sabias/ Não faz falseta!/ Vai buscar a grana, ó Marieta/ (Questão de amor ninguém se meta!)// Ontem me chamaste/ Para ser ‘béguin’/ E agora me contrariaste/ Não tens vintém/ Fui enganado!/ Desta vez tomei um bonde errado!/ (Seu condutor, me faz favor, me pára o bonde!).”

Noel Rosa era a favor ou contra o trabalho da mulher? Não sabemos, pois ele compôs “Três Apitos” e “Você Vai se Quiser”, defendendo pontos de vista opostos. “Três Apitos”, samba de 1933, foi inspirado em sua namorada Fina, que começara a trabalhar sem ele saber. Ele acabou descobrindo. Talvez aqui Noel se rendesse ao fato consumado - a namorada já arrumara emprego. O samba só foi gravado em 1951, por Aracy de Almeida:

“Quando o apito/ Da fábrica de tecidos/ Vem ferir os meus ouvidos/ Eu me lembro de você.// Você que atende ao apito/ De uma chaminé de barro/ Porque não atende ao grito tão aflito/ Da buzina do meu carro?// Você no inverno/ Sem meias vai pro trabalho/ Não faz fé com agasalho/ Nem no frio você crê./ Mas você é mesmo/ Artigo que não se imita/ Quando a fábrica apita/ Faz reclame de você.//(...) Nos meus olhos você lê/ Como eu sofro cruelmente/ Com ciúmes do gerente impertinente/ Que dá ordens a você.”

Já o samba “Você Vai se Quiser” foi composto em 1936. A esposa de Noel, Lindaura, queixava-se que ele lhe dava pouco dinheiro e ameaçava voltar a trabalhar. Ele não só proibiu como ainda fez esta música, que gravou com Marília Batista:

“Você vai se quiser/ Pois à mulher/ Não se deve obrigar a trabalhar/ Mas não vá dizer depois/ Que você não tem vestido/ E o jantar não dá pra dois.// Todo o cargo masculino/ Desde o grande ao pequenino/ Hoje em dia é pra mulher./ E por causa dos palhaços/ Ela esquece que tem braços/ Nem cozinhar ela quer.// Os direitos são iguais,/ Mas até nos tribunais/ A mulher faz o que quer./ Cada qual que cave o seu/ Pois o homem já nasceu/ Dando a costela à mulher.”

1.2 - O Estado Novo e As Orientações do DIP

Os sambistas se viram forçados a mudar de filosofia no final da década de 30. Em novembro de 1937, o presidente Getúlio Vargas fechou o Congresso Nacional e assumiu poderes ditadoriais, dando início ao Estado Novo. Em dezembro de 1939, Vargas criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), com poderes de censura sobre toda criação artística nacional, incluindo a música popular. O DIP, além de censurar, dava orientações aos compositores, que deviam, por exemplo, abandonar a malandragem e incentivar o trabalho, a família e o casamento. Ataulfo Alves gravou em 1941 um samba que compôs de parceria com Felisberto Martins, “É Negócio Casar!”:

“O Estado Novo veio para nos orientar/ No Brasil não falta nada/ Mas precisa trabalhar.”

A mudança ocorrida fica clara se compararmos sambas do período entre a implantação do Estado Novo e a criação do DIP com outros feitos já sob a orientação do órgão. O maior sucesso do carnaval de 1938 foi “Tenha Pena de Mim”, de Ciro de Souza e Babaú, na voz de Aracy de Almeida:

“Ai, ai, meu Deus/ Tenha pena de mim/ Todos vivem muito bem/ Só eu quem vivo assim/ Trabalho, não tenho nada/ Não saio do miserê/ Ai, ai, meu Deus/ Isso é pra lá de sofrer./(...) Tenho feito força/ Pra viver honestamente.”

O mesmo Ciro de Souza lançou para o carnaval de 1942 “Sete Horas da Manhã”, gravação de Patrício Teixeira:

“Quatro horas da manhã eu já estou de pé/ Enquanto eu lavo o rosto, ela faz o meu café/ Embrulha o meu almoço, eu me visto e vou andar/ Pego o trem da Leopoldina e vou trabalhar.// Sete horas da manhã, entro na repartição/ Cumprimento o meu chefe e vou marcar meu cartão./ Às dez horas, quando apita, eu saio para almoçar./ Mais tardar, às seis e meia, vou regressando a meu lar.”

E até Wilson Batista, quem diria, aparece exaltando o batente, num samba em parceria com Ataulfo Alves que Ciro Monteiro lançou com sucesso no carnaval de 1941, “O Bonde São Januário”:

“Quem trabalha é que tem razão/ Eu digo e não tenho medo de errar.// O bonde São Januário/ Leva mais um operário/ Sou eu que vou trabalhar.// Antigamente eu não tinha juízo/ Mas resolvi garantir meu futuro/ Vejam vocês/ Sou feliz, vivo muito bem/ A boemia não dá camisa a ninguém/ É, digo bem.”

Alguns autores viram na exaltação forçada ao trabalho uma oportunidade de agradarem aos poderosos de plantão e chegarem assim ao sucesso. Ary Kerner, que não emplacava nada nas paradas desde o final dos anos 20, compôs a marcha “Canção do Trabalhador”, gravada por Carlos Galhardo em 1940 sem maior repercussão:

“Somos a voz do progresso/ E do Brasil a esperança/ Os nossos braços de ferro/ Dão-lhe grandeza e pujança/ Seja na terra fecunda/ Seja no céu ou no mar/ Sempre estaremos presentes/ Tendo na Pátria o olhar.// Trabalhador/ Incansável, febril/ Esse fervor/ Exalta o Brasil/ Trabalhador/ Expressão verdadeira/ Do lema altivo/ Da nossa bandeira.”

A música que melhor sintetizou as idéias do DIP foi, certamente, “Eu Trabalhei”, samba de Roberto Roberti e Jorge Faraj, gravado por Orlando Silva, o cantor de maior sucesso na época, para o carnaval de 1941. Uma exaltação ao batente de ponta a ponta:

“Eu hoje tenho tudo, tudo que um homem quer/ Tenho dinheiro, automóvel e uma mulher!/ Mas pra chegar até o ponto em que cheguei/ Eu trabalhei, trabalhei, trabalhei.// Eu hoje sou feliz/ E posso aconselhar:/ Quem faz o que eu já fiz/ Só pode melhorar.../ E quem diz que o trabalho não dá camisa a ninguém/ Não tem razão, não tem, não tem.”

É difícil saber se o DIP tinha alguma orientação sobre o trabalho feminino. Afinal, ele tanto liberou “Vai Trabalhar” quanto “A Lavadeira”. Em “Vai Trabalhar”, de Ciro de Souza, interpretado por Aracy de Almeida em 1942, a mulher pede ao malandro que siga o exemplo dela:

“Isso não me convém/ E não fica bem/ Eu no lesco-lesco/ Na beira do tanque/ Pra ganhar dinheiro/ E você no samba o dia inteiro./ Você compreende e faz que não entende/ Que tudo depende de boa vontade/ Pra nossa vida endireitar/ Você deve cooperar/ É forte, pode ajudar/ Procure emprego, deixe o samba e vai trabalhar.”

Já “A Lavadeira”, de Herivelto Martins, que Francisco Alves lançou em 1943, é bem o oposto:

“Esta mulher já não me serve mais/ Eu vou mandar esta mulher embora.// Sem necessidade nenhuma, deu agora/ Pra lavar roupa pra fora.”

Para Haroldo Lobo, parece que o papel da mulher era acordar o marido para que ele fosse ao serviço. Pelo menos era assim nas músicas “O Bonde do Horário Já Passou”, de Haroldo e Milton de Oliveira, gravado por Patrício Teixeira em 1941 (“O bonde do horário já passou/ E a Rosalina não me acordou/ ‘Fazem’ cinco dias/ Que eu não vou trabalhar/ Rosalina me deixa em má situação”), “Emília”, de Haroldo e Wilson Batista, sucesso de Vassourinha em 1942 (“Eu quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar/ E de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar/(...) Ninguém sabe igual a ela/ Preparar o meu café”) e “Levanta José”, batucada de Haroldo e Dunga lançada por Emilinha Borba também em 1942 (“Acordei às cinco horas/ e já fiz o seu café/ Faltam quinze para as seis horas/ E você não está de pé/ Oi, levanta!”).

Não podemos, porém, condenar Ciro de Souza, Wilson Batista, Ataulfo Alves, Haroldo Lobo e outros sambistas por aderirem à ideologia dominante. Pertencentes às classes baixas e sobrevivendo em empregos modestos, eles dependiam do que conseguissem ganhar com a música (por mais desrespeitados que fossem os direitos autorais). Este já não era o caso de Ary Barroso, de classe média alta e com muitas outras atividades além da música - narrador de futebol, cronista de jornal, condutor de programas de calouros, autor de peças de teatro musicado etc. Pois até Ary Barroso, que para muitos encarnou (mesmo sem querer) o espírito do Estado Novo, teve problemas com censura de Vargas. “Aquarela do Brasil” em 1939 fora proibida por causa do verso “terra de samba e pandeiro”, que os censores consideraram “depreciativo” ao Brasil. O samba, que já estava pronto em março, só pôde ser gravado em agosto (curiosamente, em junho, “Aquarela do Brasil”, que não podia ser gravada, foi executada num espetáculo beneficente promovido pela primeira-dama Darcy Vargas), e isso porque Ary decidiu mudar toda a segunda parte da letra. A gravação na íntegra da letra original ocorreu ainda durante a vigência do Estado Novo, em maio de 1942 (antes disso, em novembro de 1941, Ary foi um dos locutores do espetáculo que comemorava os quatro anos do Estado Novo...). E “Aquarela do Brasil” normalmente é citada como música símbolo de período!

Mas Ary Barroso conseguiu gravar em 1943, sem problema algum, dois sambas que nem de longe seguiam a orientação do DIP. O primeiro foi “Terra Seca”, lançado pelos Quatro Ases e Um Coringa:

O nego tá moiado de suó/ Trabaia, trabaia nego./ As mão do nego tá que é calo só./ Ai, meu sinhô, nego tá véio/ Não agüenta!/ Essa terra tão dura, tão seca, poeirenta...// O nego pede licença pra falá/ Quando nego chegou por aqui/ Era mais vivo e ligeiro que o saci/ Varava estes rio, estas mata, estes campo sem fim/ Nego era moço, e a vida, um brinquedo para mim.// Mas esse tempo secou,/ Esta terra secou... ô ô/ A velhice chegou e o brinquedo quebrou.../ Sinhô: nego véio tem pena de tê se acabado/ Sinhô: nego véio carrega este corpo cansado.”

O segundo, “Cinco Horas da Manhã”, gravação dos Anjos do Inferno, é simplesmente uma louvação à boemia:

“São cinco horas da manhã/ O sol já vem raiando/ Maria tá em casa me esperando/ Eu vou-me embora/ É hora do corpo descansar./ Sou boêmio, mas não quero me acabar.// Maria, minha boa companheira/ Não dorme enquanto não chego/ Sou boêmio e Maria reconhece/ Por isso não me aborrece/ É hora, vou-me embora.”

1.3 - O Operário Protesta (Timidamente)

A queda de Vargas, em 1945, trouxe como conseqüência o fim do DIP. Com isto, o povo pôde cantar, no carnaval do ano seguinte, o samba de Almeidinha “Trabalhar, Eu Não”:

“Quem quiser, suba o morro/ Venha apreciar a nossa união/ Trabalho, não tenho nada/ De fome não morro não./ Trabalhar, eu não, eu não.// Eu trabalhei como um louco,/ Até fiz calo na mão/ O meu patrão ficou rico/ E eu pobre sem tostão/ É por isso que agora/ Eu mudei de opinião/ Trabalhar, eu não, eu não!”

Tudo bem que o país em 1946 já estivesse novamente em regime democrático, mas por via das dúvidas o samba só foi gravado depois do carnaval e lançado em maio (hoje seria difícil uma música não gravada ser sucesso num carnaval). E com um certo mistério: embora traga no selo do disco o nome do cantor Joel de Almeida, a voz claramente não é dele - pois quem cantou mesmo foi Onéssimo Gomes.

O sucesso inédito gravado por um cantor com nome trocado encerrou um ciclo. Não havia mais espaço para a negação do trabalho. O malandro dava lugar ao operário, que seguia criticando o batente, mas agora com conhecimento de causa. No carnaval de 1948, Francisco Alves lançou o samba de Benedito Lacerda e Ary Barroso "Falta um Zero no Meu Ordenado":

“Trabalho como um louco/ Mas ganho muito pouco/ Por isso eu vivo/ Sempre atrapalhado/ Fazendo faxina/ Comendo no china/ Tá faltando um zero/ No meu ordenado.”

A letra estilo “acordo - pego o trem - vou trabalhar” teve nova versão no samba de Wilson Batista e Roberto Martins “Pedreiro Valdemar”, sucesso de Blecaute no carnaval de 1949:

“Você conhece o pedreiro Valdemar?/ Não conhece/ Mas eu vou lhe apresentar/ De madrugada toma o trem da Circular/ Faz tanta casa e não tem casa pra morar.// Leva a marmita embrulhada no jornal/ Se tem almoço, nem sempre tem jantar/ O Valdemar, que é mestre no ofício,/ Constrói um edifício e depois não pode entrar.”

Começava a aparecer a denúncia social, ausente até então (no início, o malandro evitava o trabalho e nem teria o que denunciar; depois disso, o DIP proibiria qualquer tentativa de denúncia), com a grande exceção de “Terra Seca” (por sinal, proibida em Portugal durante a ditadura de Salazar por ser tomada como crítica à manutenção das colônias africanas...).

O que não havia (ainda) era uma determinação consciente dos compositores em fazer crítica social. Durante algum tempo, a cantora Marlene foi apontada como pioneira dos sambas de protesto por ter lançado “Zé Marmita”, de Brasinha e Luiz Antônio, no carnaval de 1953:

“Quatro horas da manhã/ Sai de casa o Zé Marmita/ Pendurado na porta do trem/ Zé Marmita vai e vem.// Numa lata/ Zé Marmita/ Traz a bóia que ainda sobrou do jantar/ Meio-dia/ Zé Marmita/ Faz o fogo para a comida esquentar/ E Zé Marmita/ Barriga cheia/ Esquece a vida num bate-bola de meia.”

A letra dá a impressão que Zé Marmita trabalhava só até o meio-dia, o que já faria com que não se levasse a sério o protesto que a composição poderia conter.

A volta de Getúlio Vargas à Presidência, eleito por voto direto, não alterou a liberdade que vigorava na música popular. Mas, como nunca se sabe, Haroldo Lobo e Marino Pinto compuseram a marcha “Retrato do Velho”, sucesso de Francisco Alves no carnaval de 1951:

“Bota o retrato do velho outra vez/ Bota no mesmo lugar/ O sorriso do velhinho/ Faz a gente trabalhar, oi!”

A marcha venceu o concurso carnavalesco da prefeitura do Rio de Janeiro e Marino Pinto foi nomeado censor do Departamento Federal de Segurança Pública.

A gozação com a famosa moleza do serviço público se fazia presente na marcha “Maria Candelária”, cantada por Blecaute no carnaval de 1952:

“Maria Candelária/ É alta funcionária/ Saltou de pára-quedas/ Caiu na letra O/ Começa ao meio-dia/ Coitada da Maria/ Trabalha, trabalha, trabalha de fazer dó.// À uma, vai ao dentista/ Às duas, vai ao café/ Às três, vai à modista/ Às quatro, assina o ponto e dá no pé./ Que grande vigarista que ela é!”

Um samba realmente de protesto foi “Diploma de Pobre”, de João Batista da Silva, Príncipe Veludo e Jorge Santos, que Moreira da Silva gravou em 1953:

“Diploma de pobre é a marmita/ O rico é que vive em boca rica/ Enquanto o filho do rico vai estudar/ Coitado do filho do pobre, vai trabalhar.// Coitado do pobre, que mal ganha pra sustentar/ Quatro ou cinco bocas que ficaram em seu lar/ Enquanto o filho do rico estuda/ E vai ser doutor/ O filho do pobre nasce e morre/ Trabalhador.”

2 - O TRABALHO NA MÚSICA BRASILEIRA RECENTE (1958-1996)

2.1 - Jovem Guarda e Bossa Nova

Na década de 50 tivemos a entrada do rock no Brasil. Os temas do rock eram namoros, festinhas e atos de rebeldia. Os roqueiros viviam gabando-se da posse de bens de consumo, como guitarras elétricas (luxo na época) e carros, mas nunca mencionavam como teriam acesso a esses bens (que na vida real poucos deles tinham, mesmo). A única exceção foi, já no período da Jovem Guarda, “O Carango”, de Carlos Imperial e Nonato Buzar, gravado por Erasmo Carlos em 1966 (“Ninguém sabe o duro que dei/ Pra ter fon-fon, trabalhei, trabalhei/(...) Roberto, Simonal, Wanderley/ Vejam só o carango que eu comprei”).

O outro grande marco da década de 50 foi o surgimento da Bossa Nova, movimento de jovens de classe média para cima e com formação universitária. O período inicial da Bossa Nova é dominado por composições românticas. Nenhum clima para músicas falando em trabalho. A segunda geração da Bossa Nova, nos anos 60, é que teve uma preocupação social. Apareceram então canções sobre morro, pobreza, falta de terras etc. Mas, curiosamente, toda uma geração que debatia as condições de trabalho e os meios de produção nas faculdades (e que, portanto, teria teoricamente mais condições de denunciar as más condições de trabalho que compositores das gerações anteriores, nas quais diploma universitário era uma exceção) não levou essa discussão para a música popular. Uma exceção foi “Maria Moita”, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, cantada por Nara Leão no espetáculo Pobre Menina Rica, em 1963 (o regime militar que tomou o poder no ano seguinte proibiu esta música):

“Deus fez primeiro o homem/ A mulher nasceu depois/ Por isso é que a mulher/ Trabalha sempre pelos dois./ Homem acaba de chegar/ Tá com fome/ E a mulher tem que olhar pelo homem/ E é deitada, é em pé/ Mulher tem é que trabalhar.// O rico acorda tarde/ Já começa a rezingar/ O pobre acorda cedo/ Já começa a trabalhar./ Vou pedir ao meu babalorixá/ Pra fazer uma oração pra Xangô/ Pra pôr pra trabalhar/ Gente que nunca trabalhou.”

2.2 - Chico Buarque

Chico Buarque apareceu na década de 60 fazendo um samba tradicional, trazendo de volta o morro e seus temas de malandragem, trabalho, carnaval e problemas com a polícia. Já no seu primeiro sucesso, em 1965, estava o operário esperando a condução: “Pedro Pedreiro”.

“Pedro pedreiro penseiro esperando o trem/(...) Esperando, esperando, esperando/ Esperando o sol/ Esperando o trem/ Esperando o aumento/ Desde o ano passado/ Para o mês que vem.”

“Com Açúcar, Com Afeto”, feita a pedido de Nara Leão em 1966, retoma a preocupação feminina com o homem que não trabalha:

“Você diz que é operário/ Vai em busca do salário/ Pra poder me sustentar/ Qual o quê/ No caminho da oficina/ Há um bar em cada esquina/ Pra você comemorar/ Sei lá o quê.”

Até aqui, tudo bem. O cidadão fingia que trabalhava, a mulher tinha razão em se queixar. Mas quando ele faz até hora extra e a mulher continua a reclamar, não dá. Era a história de “Logo Eu?”, que Chico compôs e gravou em 1967:

“Essa menina quer me transformar/ Chego em casa, olha de quina/ Diz que já me viu na esquina/ A namorar/ Logo eu, bom funcionário/ Cumpridor dos meus horários/ Um amor quase exemplar/ A minha amada/ Diz que é pra eu deixar de férias/ Pra largar a batucada/ E pra pensar em coisas sérias.//(...) E tem mais isso:/ Estou cansado quando chego/ Pego extra no serviço/ Quero um pouco de sossego/ Mas não contente/ Ela me acorda reclamando/ Me despacha pro batente/ E fica em casa descansando.”

Depois dessa fase inicial, Chico voltou ao tema apenas em sua produção destinada a teatro e cinema. Foi assim com “Vai Trabalhar, Vagabundo” (“Vai trabalhar, vagabundo/ Vai trabalhar criatura/ Deus permite a todo mundo/ Uma loucura”), de 1973, tema do filme de mesmo nome dirigido por Hugo Carvana. Também com “Homenagem ao Malandro”, de 1977, que integrava a peça Ópera do Malandro:

“Eu fui fazer um samba em homenagem/ À nata da malandragem/ Que conheço de outros carnavais/ Eu fui à Lapa e perdi a viagem/ Que aquela tal malandragem/ Não existe mais./ Agora já não é normal/ O que dá de malandro regular, profissional/ Malandro com aparato de malandro oficial/ Malandro candidato a malandro federal/ (...) Mas o malandro pra valer/ Não espalha/ Aposentou a navalha/ Tem mulher e filho e tralha e tal/ Dizem as más línguas que ele até trabalha/ Mora lá longe e chacoalha/ Num trem da Central/ (Xi!).”

2.3 - Roberto Carlos

Roberto Carlos, em sua constante parceria com Erasmo Carlos, é sem dúvida o autor atual que mais aborda o trabalho em suas canções. Diversamente da maioria dos compositores citados neste texto, ele não tem ligação direta com o samba de morro, mas se deve salientar que Roberto é de família humilde e morou em subúrbio em seus primeiros anos de Rio de Janeiro, o que talvez o tenha marcado a ponto de eleger o trabalho como um de seus temas preferenciais ao compor.

O trabalho na obra de Roberto Carlos é tratado de formas distintas, mas compatíveis, nas duas principais linhas de suas canções: a romântica e a religiosa.

Na linha romântica, o cantor, embora jamais negue a importância do trabalho, apresenta-o geralmente como algo que separa homem e mulher que se amam. Sua primeira música sobre trabalho, “Rotina”, de 1973, retoma o tema da ida matinal do operário ao serviço, numa abordagem bem mais romântica que as anteriores:

O sol ainda não chegou/ E o relógio há pouco despertou/(...) Seu corpo adormecido e mal coberto/ Quase não me deixa ir/ Fecho os olhos, viro as costas/ Num esforço eu tenho que sair./ A mesma condução/ A mesma hora/ Os mesmos pensamentos chegam/ Meu corpo está comigo/ Mas meu pensamento ainda está com ela./(...) Estou chegando para mais um dia de trabalho que começa/ Enquanto lá em casa ela desperta/ Pra rotina do seu dia./(...) O dia vai passando, a tarde vem/ E pela noite eu espero/ Vou contando as horas que me separam/ De tudo aquilo que mais quero/ Meu rosto se ilumina num sorriso/ No momento de ir embora/ Não posso controlar minha vontade/ De sair correndo agora/ O trânsito me faz perder calma./(...) Pensando em minha volta, muitas vezes/ Ela vem olhar a rua.(...)”

Já em “Cheirosa”, de 1996, ele queixa-se da mulher que, com seu perfume, parece querer que ele não vá trabalhar. O operário não falta ao serviço, mas fica a impressão que ter uma esposa cheirosa autoriza a redução da jornada de trabalho.

“Por que você tá tão cheirosa desse jeito?/ Parece que saiu do banho pra me ver/ Você sabe que toda causa tem efeito/ Eu tenho milhões de coisas pra fazer.// Cheirosa.// Meu bem, isso não se faz com quem trabalha/ E já vai sair pra cumprir o seu dever/ Esse perfume a cabaça me embaralha/ De terno e gravata, o que é que eu vou fazer?//(...) Eu volto pra casa mais cedo e que coisa gostosa/ Dos pés à cabeça, você vive sempre cheirosa.//(...) Eu volto e te encontro cheirosa desse jeito/ Parece que saiu do banho pra me ver/ Me abraça, me beija, me aperta e se encosta em meu peito/ Agora eu não tenho nada pra fazer.”

Roberto comenta o trabalho feminino em duas músicas. Na primeira, “Se Diverte e Já Não Pensa em Mim”, de 1988, o cantor não se conforma que a ex-amada consiga trabalhar, indiferente ao sofrimento dele:

“De manhã vai pro trabalho/ Apressada nem se lembra que eu existo/(...) Bate a porta do seu carro, liga o rádio/(...) Agitando todo dia/(...) Usa o fax e o telex/ Às seis horas, ela fala ao telefone...”

Já na segunda, a mulher é a chefe, e quem vai de carro ao trabalho é ele. “Obsessão” é de 1993:

“Saio pro trabalho, o tempo todo estou pensando nela/(...) Ligo o rádio pra me distrair e uma canção tão bela/(...) Chego ao trabalho, a minha chefe quer falar comigo/ Olho para ela e ela pressente que há qualquer perigo/ O perigo está no seu perfume que é igual ao dela/ Só depois que abraço e beijo a chefe/ Eu olho e não é ela!”

A linha religiosa da obra de Roberto aborda o trabalho como algo positivo, um dos valores que a família lhe transmitiu, como em “Aquela Casa Simples”, de 1986:

“Naquela casa simples/ Você falou pra mim/(...) Que eu fosse um bom menino/ Que eu trabalhasse muito/ Que o nome do meu pai soubesse honrar e nunca fosse um vagabundo.”

Qualquer trabalho, mesmo o mais humilde, dignifica o homem, afirma Roberto em “Todo Mundo é Alguém”, de 1988:

“Da semente ao trigo, quantos são/ Pra fazer chegar à mesa o pão?/ Do barro até o topo de um arranha-céu/ Quantos estão nessa missão?/ Todo ser humano é importante/ Naquilo que ele faz/ Por isso, quem é quem/ Se aos olhos de Deus/ Todo mundo é alguém?”

Também na linha religiosa se insere “Herói Calado”, de 1992:

“Ele acorda cedo demais/ O dia nem clareou/ Sai de casa aquele rapaz/ Que nem bem dormiu já acordou./ Vive preocupado/ Anda imprensado/ Mal acomodado no trem/ Pisa com cuidado/ Pra não ser pisado/ Vive com o pouco que tem./ Mas quando o dia vem nascendo/ Olha o céu e pede a Deus/ Meu Deus, me ajuda a seguir.// Quando abre a porta ele sai/ Misturado na multidão/ Que à luta com ele vai/ Defender a vida e o pão./ Pega no pesado/ O corpo suado/ Calos tem nas palmas das mãos/ Esse herói calado, um abençoado/ O nome dele é povão.// Com suor molhando o rosto/ Olha o céu e pede a Deus/ Meu Deus, me ajuda a seguir.// Meu Deus, me ajuda a carregar essa cruz/ Me mostra esse caminho de luz/ Me pega pela mão, me conduz.// O sol esquenta demais/ O suor caindo no chão/ No fim da tarde ele sai/ Pouco tem no bolso e nas mãos./ E volta imprensado/ E mal acomodado/ E mais amarrotado no trem/ Esse herói calado/ Um abençoado/ Forte pela fé que ele tem./ E chega em casa, olha os filhos e a mulher/ E pede a Deus/ Meu Deus, me ajuda a seguir.”

2.4 - Outros Compositores

Isto dito assim pode parecer incrível, mas existem nos morros (melhor dizendo, na periferia) pessoas fazendo sambas com temas semelhantes aos da década de 30, entre eles a crítica ao trabalho, mas a sociedade atualmente tem poucos canais abertos para que essas músicas façam sucesso. Todo o repertório gravado por Bezerra da Silva, por exemplo, tem esta origem. Felizmente, ele não é o único. Paulinho da Viola também costuma prestigiar esses que Bezerra chama de “os verdadeiros compositores”. Um samba gravado por Paulinho em 1982 voltava ao tema da recusa ao batente: “Que Trabalho é Esse?”, de Zorba Devagar e Micau.

“Que trabalho é esse que mandaram me chamar?/ Se for pra carregar pedra, não adianta, eu não vou lá.// Quando chego no trabalho/ O patrão vem com aquela história/ Que o serviço não está rendendo/ Eu peço minhas contas e vou-me embora/ Quando falo no aumento, ele sempre diz que não é hora.// Veja só, meu companheiro/ A vida de um trabalhador/ Trabalhar por tão pouco dinheiro/ Não é mole, não senhor/ Pra viver dessa maneira, eu prefiro ficar como estou.// Todo dia tudo aumenta/ Ninguém pode viver de ilusão/ Assim eu não posso ficar, meu compadre/ Esperando meu patrão/ E a família lá em casa sem arroz e sem feijão/ (Como é que fica?).”

A idéia de que o trabalho dignifica o homem foi otimamente expressa por Gonzaguinha na música “Guerreiro Menino”, lançada por Fagner em 1983:

“Um homem se humilha/ Se castram seu sonho/ Seu sonho é sua vida/ E a vida é o trabalho/ Sem o seu trabalho/ Um homem não tem honra/ Sem a sua honra/ Se morre, se mata/ Não dá pra ser feliz.”

Em tantas composições que vimos sobre o trabalho feminino, nenhuma chegou a se preocupar com a dupla jornada da mulher, em casa e fora dela. Isto aparece apenas com “Mama África”, de Chico César (a música se tornou sucesso em 1996, mas já constava do disco Aos Vivos, de 1994):

“Mama África (a minha mãe)/ É mãe solteira/ E tem de fazer mamadeira todo dia/ Além de trabalhar como empacotadeira/ Nas Casas Bahia.// Mama África tem tanto o que fazer/ Além de cuidar neném/ Além de fazer denguim/ Filhinho tem que entender/ Mama África vai e vem/ Mas não se afasta de você.// Quando Mama sai de casa/ Seus filhos se olodunzam/ Rola o maior jazz/ Mama tem calo nos pés/ Mama precisa de paz/ Mama não quer brincar mais/ Filhinho dá um tempo/ É tanto contratempo/ No ritmo de vida de Mama.”

BIBLIOGRAFIA

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